sexta-feira, 18 de maio de 2007

O que queremos reduzir?


Abaixo, segue o texto de Nathalia Duarte, que foi publicado no Pensare de número 1 e traz uma reflexão sobre dois temas polêmicos, a redução da maioridade penal e a pena de morte. Boa Leitura!


O que queremos reduzir?

Henry Thoreau, considerado pai do anarquismo, já nos atentou para o fato de que o Estado aprisiona o corpo dos transgressores por não conseguir parar seus pensamentos. Encher as penitenciárias de pessoas que são um incômodo para a sociedade, lembrando que a maioria dos presos é de classe baixa, nada mais é do que fechar os olhos para um grave problema. Encher as penitenciárias de incômodos em potencial, ou seja, reduzir a maioridade penal, é não só ignorar a crise que estamos vivendo como agravá-la. As péssimas condições das cadeias, somadas ao ócio improdutivo promovido por elas, jamais irão reintegrar alguém à sociedade, apenas deixam o ex-detento mais marginalizado do que era antes de cumprir a pena.
Com essa pragmática e imediatista proposta de aprisionar mais cedo os adolescentes, estaremos super lotando as já super lotadas penitenciárias e, o que é pior, incentivando a continuação desse ciclo vicioso, que faz com que os presos saiam das cadeias mais preparados para cometer outros delitos. A educação de qualidade dentro das instituições de menores é uma das formas de evitar que os jovens, após estarem em liberdade, cometam novos crimes. É necessário ponderar que, em um ambiente no qual a vida do detento não tem o menor valor, ele aprenderá a desvalorizar também a vida das outras pessoas. Já em uma instituição onde o preso possa trabalhar ou estudar e tenha um tratamento digno, seus aprendizados serão totalmente diferentes. Não podemos achar que ficar confinado em uma prisão, tendo que abdicar de inúmeras coisas, mesmo que se trabalhe ou estude, não é punição suficiente. Ao desejar que um preso seja submetido a tratamentos e situações desumanas (como acontece muito freqüentemente), estamos automaticamente desejando que ele não se reintegre, portanto promovendo o que queremos combater.
Além da redução da maioridade penal, surge outra discussão entre os brasileiros: a adoção da pena de morte. O contra argumento mais óbvio e incontestável é de que, com a instituição da pena de morte, muitos inocentes podem morrer. Em uma análise mais profunda, é possível perceber que esse é apenas um dos inúmeros problemas. Se o Estado condena o assassinato, ele não deveria cometer um. A justificativa de que tal ato se explica pelo bem que fará à sociedade é no mínimo estranha. Quem comete um crime uma vez não necessariamente cometerá outros. A atribuição do ato criminoso à natureza da pessoa que o comete é equivocada, a presença maciça da violência nas favelas evidencia que esse é um problema de ordem social e não de natureza humana. Ao matar um assassino para puni-lo, se está afirmando que uma pessoa tem mais direito à vida do que outra. O que define essa diferença de direitos? Considerando o país em que vivemos, inevitavelmente cairemos no critério da posição social, no qual a lei vale para os pobres e nunca para os ricos (que podem evitá-la com bons advogados ou com subornos).
Para os que acham a pena de morte necessária, vale lembrar que o sistema capitalista se baseia na concentração de renda. Uma sociedade desigual como a nossa sempre produzirá mais marginais que, por não se sentirem cidadãos, continuarão cometendo crimes. Políticas de médio e longo prazo que promovam mudanças estruturais são mais sensatas do que matar cada novo criminoso.
Tais reflexões são muito importantes para definirmos que sociedade queremos, como vamos fazer para que ela alcance esse ideal e até que ponto somos contraditórios em nossos discursos. Está aberto o debate.

Nathalia Duarte.

11 comentários:

Isabela disse...

yeahs jatobá
continue assim,
um bom critico
vc vai longe

beijos
preta

Carol {: disse...

Muito boa a matéria... vou até ajudar a divulgar...
E os presidiários[tanto os de menores quanto os maiores de idade] deveriam estudar mesmo... para não sairem da prisão e voltarem pra lá em um mes...

:D:D
ótimo [y][y][y]

laís disse...

sorte, sucesso e determinação. um projeto inovador, jovem e audacioso. juntos formamos uma nação, que façamos dela nossa então.

um beijo e lutemos por aquilo que achamos justo!

Débora Freitas disse...

"em um ambiente no qual a vida do detento não tem o menor valor, ele aprenderá a desvalorizar também a vida das outras pessoas"

"Se o Estado condena o assassinato, ele não deveria cometer um"

"Ao matar um assassino para puni-lo, se está afirmando que uma pessoa tem mais direito à vida do que outra"


Essas três afirmações leva a uma outra: no caso de assasinato, o homicida já "desvalorizou" a vida de alguém. Se ele se achou no direito de tirar a vida de alguém, alguém, no caso o Estado (importante considerar este "estado", competente e justo, o que já é uma outra discussão) também pode achar justo tirar a vida desse homicida. Se ele quer respeito ao seu direito de viver, ele não deveria ter violado o direito de outra pessoa.

Mas no Brasil, realmente é um caso muito dificil de se apoiar a pena de morte, pois todo o poder está consumido em corrupção e os poucos que sobram não têm forças pra combater tantos vermes.



Adorei o blog, virei bem mais vezes =)

_kaiocezar_ disse...

Maioridade penal, eu era a favor da diminuiçao, mas depois de um trabalho da faculdade em que analisei tudo o que esta por tras e pela frente mesmo, mudei de opniao.

Diminuir a maioridade penal é confessar nossa incompetencia de conseguir realizar nossos objetivos e sonhos quanto sociedade e humanos.
Colocar jovens em idade de formaçao educacional na cadeia só o transformará em um bandido ainda pior.
Pois como ja foi dito, o sistema penitenciario é muito falho e só serve para formar bandidos.

Muito boa a ideia, parabens

http://horadonada.blog.terra.com.br

Tiago disse...

muito bom, isso realmente fez mudar os meus conceitos sobre.

Burns disse...

Concordo com o texto. Esse ano escrevi bastante já sobre isso, básicamente mesmo pensamento que o meu.

Um homem com pés de pato numa ilha embaixo de um helicóptero disse...

boas idéias rendem uma boa discussão.

Nathalia disse...

Como autora do texto fico muito feliz por vocês terem gostado e de ele ter gerado uma discussão de nível.
Continuem visitando

Andréa C. disse...

Ainda que eu seja contra não só a redução da maioridade penal, mas também a pena de morte, considero o assunto sensacionalista e a abordagem ingênua e superficial. Acho que alguns jovens têm, em geral, o péssimo hábito de expressarem as suas opiniões sem antes terem se lançado na leitura dos muitos estudos sérios que existem sobre os temas a partir dos quais se entusiasmam e resolvem expor as suas opiniões. Há uma rica literatura sobre os temas discutidos por vc: sobre a punição há, para dar um exemplo, "Vigiar e punir" de M. Foucault (mas há muitos outros textos, pesquise...). Penso que ler é condição para qualquer produção escrita realmente crítica, ainda que se trate de discussões sensacionlistas como algumas presentes neste "fanzine". Espero que, com o tempo, ou melhor, com a experiência de vida, vc descubra que antes de escrever é necessário exercitar leitura e a "paciência do conceito". Espero tb que suporte bem as críticas que fiz aqui e que não as apague, pois se vc tornou pública as suas opiniões, deve tb ser corajosa para não censurar as respostas que elas motivaram. Atenciosamente, Andréia C.

Anônimo disse...

Ai adorei o blog cara... você pensa super. Tambem estou no 2º ano, só tenho a dizer: nunca se é tão jovem que não possa ensinar ou tão velho que não possa.
aprender.

;)

FALOK!!!