quinta-feira, 31 de maio de 2007

Overdose Poética

Na segunda edição do Pensare, foram colocadas algumas poesias, deixo disponível para que todos vejam abaixo, o resultado dessa "overdose poética".


Ode ao Aécio

Dou uns traguinhos num câncer.canso de matar-me aos pouquinhos.
no fim das contas,
tudo vira pó.
Tábata Morelo

Celibato Clerical (CC)
O Papa: que não transa,
que não tem filha que transa,
que não tem neta que transa,
não gosta de camisinha.
O Pai: que transa,
que tem filha que transa,
que tem neta que transa,
não gosta de camisinha.
O primeiro, por conta da chatice.
O segundo, porque é católico.
Tábata Morelo

Só Riso

"Eu escrevo para fugir da dor, da perda, da luta. Eu escrevo para ganhar a vida, ganhar o mundo, me perder no vento, no trem, sem paradeiro. Eu canto porque eu gosto de gritar, gosto de soltar o verbo, de aliviar a pressão. Eu canto para encontrar o meu lugar no mundo, eu grito para construir meu lugar no espaço, para pedir silencio, para aquietar o facho. Eu durmo porque é bom, sossegar a alma, fechar os olhos. Eu durmo para me sentir livre daqui. Eu acordo porque é preciso, não se pode ficar o tempo inteiro só sonhando, só respirando sem esforço nenhum, às vezes também é preciso subir ladeiras e andar no meio fio, sambar na ponta do pé, dançar a valsa fora do ritmo. Eu como, por que? Na verdade acho que comecei quando minha vó contou a história de uma menina que não comia e morreu comida, foi ai que eu comecei a comer, mas comer é tão gostoso! Você mastiga, lambe, cospe e engole. Tudo se mistura, é uma mistura bacana. Beber também é bom, ajuda a limpar tudo o que você comeu. Quem inventou a comida nem pensava no regime, para que eu vou pensar então? Prefiro não arriscar. E por que eu arrisco? Na verdade, é só riso."
Laís Girardi

Porta Retrato

"Eu bem que disse a ele, que a vida seria injusta, que o frio seria imenso, que as folhas e as flores não duram toda a parte do ano, mas elas sempre voltam, algumas mais belas outras simplesmente não mudam. Eu bem que disse a ele que Deus não estava em todo lugar, que a dor iria atormentar, que o amor poderia destruir e que a destruição acabaria com a nossa liberdade. Eu bem que disse a ele, mas ele ...preferiu se entregar. Dizia que não valeria a pena não correr o risco, que era necessário fazer algo, o mundo não gira atoa minha querida, me dizia todas as noites e foi assim que aos poucos aprendi. Se me perguntarem, eu digo, afirmo, grito aos quatro cantos, a vida vale o risco."

Laís Girardi

Frascos e Comprimidos

Eu, defensor dos frascos e comprimidos,
lhes digo.
Hipocondria não é doença!
Hipocondria é necessidade.
Desfigurar a realidade.
Fuga da roda viva.
Prazeres baratos,
às vezes caro.
Estou ajoelhado,
mas prefiro sentir que estou em pé.
Ingeri diferentes histórias,
de tempos que nem vivi.
Acordarei amanhã,
sem lembrar o prazer de hoje.
Isso sim, é viver intensamente.
Lucas Jatobá

Biografia

Em instantes nascimento.
Primeiras informações.
Minha mãe, minha vida.
Meu pai, descobrimento.
Divagações de minha pequena cabeça,
que só pensa no líquido branco.
Este foi meu primeiro entorpecente,
Aproveitei-o de forma intensa.

Em outros instantes aumentei.
E de zero, pulei para o seis.
Acrescentaram verdades a mim.
Assim, meus primeiros conceitos criei.
Minha maior preocupação era brincar,
correr pelos campos com minha bola,
inventar e viajar em histórias.
O mundo era um brinquedo, com o qual eu sabia brincar.

Seis mais dez, dezesseis.
Sim, eu aproveitei bastante.
Ainda me lembro de meus amores.
Naquela época, perdi a vez.
Passei anos revoltado.
Aprendi que muitas verdades eram mentira
O mundo, então, deixou de ser brinquedo.
Aprendi, assim, a viver alienado.

Alienado homem, no alienado mundo,
foi o homem que me tornei.
Me uni à alguém do sexo oposto.
Criei crias, eu, vagabundo.
Me fixei como trabalhador,
servindo incerto à outro alguém.
Na minha cabeça, só estresse.
Desejava ter sido o libertador.

Entrei na idade antiga.
Passei a ser obsoleto.
Rugas de uma vida preocupada.
Me apeguei mais a cama, uma velha amiga.
Sem precisar, fui ajudado.
Me ajudavam, mas eu era imprestável.
Agüentei esta etapa bravamente.
Emitia opinião, e era ignorado.

No meu leito de morte, em profunda agonia,
implorei.
Por favor, não quero ser esquecido.
E lentamente foi embora, a morta alma que ali vivia.
Lucas Jatobá

O direito de escolha



Na segunda edição do Pensare, o texto publicado, foi um texto de Zoe Olivotto cujo tema é o aborto. Segue abaixo, este texto.





O direito de escolha



A primeira lei permissiva ao aborto entrou em vigor em 1920, na União Soviética. Desde então, a discussão tomou conta das escolas, das palestras, das revistas e da Câmara dos Deputados. Vários países aderiram a políticas favoráveis ao aborto a partir da década de 50, tais como os Estados Unidos, Reino Unido, França e Austrália. Porém, na década de 80, a maior parte dos países latino-americanos, a maior parte dos africanos, quase todos os países muçulmanos da Ásia e cinco dos europeus pertenciam a um grupo onde o procedimento estava proibido em quaisquer circunstâncias, ou permitido somente naquelas que implicavam risco grave à vida da gestante.
Apesar da ilegalidade, não é nenhum segredo que o procedimento é realizado em todos os cantos do mundo, e que onde não é permitido é realizado em condições nada adequadas. Na falta de aparelhos, são usados mesmo produtos de limpeza caseiros ou utensílios de cozinha para realizar uma cirurgia considerada clinicamente delicada. Isso faz com que o aborto ilegal seja a terceira causa de morte materna. O fato de ser ilegal não faz (não fez e nunca fará) com que as mulheres não abortem, caso assim queiram. É ilógico pensar que sim.
Há quem desaprove o aborto por alegar que seria falta de responsabilidade, que as pessoas devem "arcar com as conseqüências" do que fizeram e que o aborto seria uma saída fácil para um problema. Será então que a criança deva ser uma punição pelo estouro da camisinha? E mesmo se irresponsáveis, a criança deve nascer para castigar? Estamos falando de uma vida, não de uma multa de trânsito. É importante pensar que não só os pais sofreriam com um filho indesejado, mas também o filho que não teve parte alguma no ocorrido. E ainda que não, é macabro mesmo pensar que os pais devam ter suas vidas transtornadas, se isso pode ser evitado. Todos adoram dizer que "errar é humano", quando lhes é conveniente, então por que nesse caso não é aceito o erro? Além do que, o procedimento não é uma saída nada "fácil". Ninguém almeja o aborto, apenas não tem outra opção. Sem contar com aqueles que não tem condições financeiras ou estruturais para sustentar um filho: por que o aborto é considerado pior do que trazer uma criança para uma situação desfavorável para ela mesma?
A religião e a moral tendem a ser os primeiros a negar o aborto. Sempre entra na discussão o "direito à vida", algo que todos possuímos e que seria imoral se negado a alguém, mesmo que um feto. E a maneira como certas parcelas da população são tratadas, não é imoral? Em pleno século XXI, pessoas passando fome e sede, sem ter onde morar, sem acesso a saúde e educação, enquanto muitas outras têm tudo isso, não é imoral? O aborto não pode ser ilegal pela justificativa de ferir uma suposta moral, que já não funciona nem para os vivos. Tudo isso é na verdade falsamente justificado pelo sentimento de culpa que os bons cristãos tendem a sentir. Se na sociedade nem as pessoas tem direito a vida, porque uma célula haveria de ter? O argumento cristão de estar matando uma "possibilidade de vida" também pode ser usado contra o uso da camisinha, aonde várias "possibilidades" são barradas. Proibiremos a camisinha, então. É bom lembrar que quanto mais pobres nascem, mas fiéis a Igreja tem: nunca é desinteressante que nasçam crianças sem condições.
A questão aqui não é quem optaria ou não pelo aborto. Mas sim que o Estado não pode negar essa opção às pessoas. Quando ilegal, a única opção é não fazer. Quando legalizado, ninguém é obrigado a fazer ou não: lhes é dado o poder de escolha.
A não-legalização vem como uma imposição daqueles que discordam do procedimento sobre aqueles que são a favor.
Há quem diga que não é a favor do aborto, e sim a favor da opção. E talvez isso baste. Fica aberto o debate.
Zoe Olivotto

sexta-feira, 18 de maio de 2007

O que queremos reduzir?


Abaixo, segue o texto de Nathalia Duarte, que foi publicado no Pensare de número 1 e traz uma reflexão sobre dois temas polêmicos, a redução da maioridade penal e a pena de morte. Boa Leitura!


O que queremos reduzir?

Henry Thoreau, considerado pai do anarquismo, já nos atentou para o fato de que o Estado aprisiona o corpo dos transgressores por não conseguir parar seus pensamentos. Encher as penitenciárias de pessoas que são um incômodo para a sociedade, lembrando que a maioria dos presos é de classe baixa, nada mais é do que fechar os olhos para um grave problema. Encher as penitenciárias de incômodos em potencial, ou seja, reduzir a maioridade penal, é não só ignorar a crise que estamos vivendo como agravá-la. As péssimas condições das cadeias, somadas ao ócio improdutivo promovido por elas, jamais irão reintegrar alguém à sociedade, apenas deixam o ex-detento mais marginalizado do que era antes de cumprir a pena.
Com essa pragmática e imediatista proposta de aprisionar mais cedo os adolescentes, estaremos super lotando as já super lotadas penitenciárias e, o que é pior, incentivando a continuação desse ciclo vicioso, que faz com que os presos saiam das cadeias mais preparados para cometer outros delitos. A educação de qualidade dentro das instituições de menores é uma das formas de evitar que os jovens, após estarem em liberdade, cometam novos crimes. É necessário ponderar que, em um ambiente no qual a vida do detento não tem o menor valor, ele aprenderá a desvalorizar também a vida das outras pessoas. Já em uma instituição onde o preso possa trabalhar ou estudar e tenha um tratamento digno, seus aprendizados serão totalmente diferentes. Não podemos achar que ficar confinado em uma prisão, tendo que abdicar de inúmeras coisas, mesmo que se trabalhe ou estude, não é punição suficiente. Ao desejar que um preso seja submetido a tratamentos e situações desumanas (como acontece muito freqüentemente), estamos automaticamente desejando que ele não se reintegre, portanto promovendo o que queremos combater.
Além da redução da maioridade penal, surge outra discussão entre os brasileiros: a adoção da pena de morte. O contra argumento mais óbvio e incontestável é de que, com a instituição da pena de morte, muitos inocentes podem morrer. Em uma análise mais profunda, é possível perceber que esse é apenas um dos inúmeros problemas. Se o Estado condena o assassinato, ele não deveria cometer um. A justificativa de que tal ato se explica pelo bem que fará à sociedade é no mínimo estranha. Quem comete um crime uma vez não necessariamente cometerá outros. A atribuição do ato criminoso à natureza da pessoa que o comete é equivocada, a presença maciça da violência nas favelas evidencia que esse é um problema de ordem social e não de natureza humana. Ao matar um assassino para puni-lo, se está afirmando que uma pessoa tem mais direito à vida do que outra. O que define essa diferença de direitos? Considerando o país em que vivemos, inevitavelmente cairemos no critério da posição social, no qual a lei vale para os pobres e nunca para os ricos (que podem evitá-la com bons advogados ou com subornos).
Para os que acham a pena de morte necessária, vale lembrar que o sistema capitalista se baseia na concentração de renda. Uma sociedade desigual como a nossa sempre produzirá mais marginais que, por não se sentirem cidadãos, continuarão cometendo crimes. Políticas de médio e longo prazo que promovam mudanças estruturais são mais sensatas do que matar cada novo criminoso.
Tais reflexões são muito importantes para definirmos que sociedade queremos, como vamos fazer para que ela alcance esse ideal e até que ponto somos contraditórios em nossos discursos. Está aberto o debate.

Nathalia Duarte.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Pensare!

Se você está aqui, é porquê você provavelmente já conhece e sabe do que se trata o Pensare. Caso você não conheça, darei uma breve explicação. O Pensare é um jornal feito por estudantes de Belo Horizonte, que tem como principal objetivo incentivar as pessoas a pensarem sobre assuntos, que são extremamente importantes para nós e que estão constantemente no dia a dia, mas que as pessoas não dão a atenção necessária. O nome do jornal, Pensare, significa "pensar", em latim, e vem justamente do ideal do jornal. O jornal em sua primeira edição, traz um texto que fala da maioridade penal e da pena de morte, e traz, também um charge. Colocarei disponível depois aqui este text, e possivelmente também a charge.